Texto: Angela de Almeida
Ao girar o botão de sintonia do rádio do carro, o ponteiro pareceu mover-se de maneira quase que autônoma na direção de uma determinada estação. A voz uníssona dos Beatles ecoou com pungência: Because the world is round, it turns me on... Tudo soava perfeito até que o timbre de alcova do locutor invadiu a caixa de som: Porque o mundo é redondo, ele me deixa ligado..., modulou com gravidade. Logo adiante, os quatro cavaleiros de Liverpool atacaram o refrão: Love is all, love is new/ Love is all, love is you... E o comunicador, na lata: O amor é tudo, o amor é novo/ O amor é tudo, o amor é você...
A canção não era necessariamente esta, mas a combinação esdrúxula da gravação original com a tradução simultânea e declamativa do radialista provocou um lampejo imediato no ator Pedro Paulo Rangel, que conduzia o carro. Se feita a sério, maquinou, a idéia de recitar letras de música poderia, sim, resultar em um espetáculo interessante e especialmente saboroso.
Com mais de três décadas de teatro profissional na bagagem, o ator, que em 1994 soube dar admirável vida cênica ao célebre, requintado e canônico
Sermão da Quarta-feira de Cinza, do orador sacro e missionário jesuíta do século XVII Padre Antônio Vieira, acalentava há tempos o desejo de emprestar seu talento a um recital de poesias. E, daquele estalo no carro em diante, a vontade de que o recital girasse em torno de letras do nosso cancioneiro popular foi se tornando uma espécie idéia fixa. Ao longo de cinco anos, aproximadamente, Pedro Paulo Rangel dedicou-se como um casmurro ao ritual de ouvir e coletar letras que, despidas da respectiva melodia, pudessem se prestar a uma interpretação cênica. No meio do caminho, teve o privilégio de ser escolhido para dar voz aos poemas do genial poeta mato-grossense Manoel de Barros, em CD da coleção Poesia Falada, lançado pelo selo Luz da Cidade. A oportunidade tratou de tornar ainda mais renitente na cabeça do ator a determinação de declamar a obra de poetas da nossa música popular.
Pois agora, alguns formatos e esboços depois, eis que a
SOPPA DE LETRA de Pedro Paulo Rangel – o popular PP, apelido referenciado na letra dobrada do título –, deixa finalmente o plano das idéias para ganhar vida própria. Com
roteiro escrito a seis mãos pelo próprio Pedro Paulo Rangel, em parceria com Antonio De Bonis e Naum Alves de Souza, que assina também direção, cenografia e figurinos; direção musical e arranjos do maestro Roberto Gnattali; iluminação de Wagner Pinto e o auxílio luxuoso do trio formado por Lena Verani (clarinete e clarone), Luiz Flávio Alcofra (violão e cavaquinho) e Marcus Nunes (percussão), o espetáculo estreou em 26 de junho, um sábado, no Centro Cultural da Justiça Federal.
Produzido pelo próprio ator,
SOPPA DE LETRA percorre em quase sete dezenas de letras – na íntegra (a imensa maioria) ou não – um longo e variado trajeto da palavra na nossa música popular. Que ninguém espere, no entanto, um passeio turístico. A SOPPA de PP permite-se ir da poesia pura (
Soneto da Separação, de Vinícius de Moraes, e
Traduzir-se, de Ferreira Gullar, musicadas por Tom Jobim e Raimundo Fagner, respectivamente) ao hip hop (Fiel Bailarino de Nega Giza e MV Bill); passando por Miséria S/A, do Rapa; da palavra-prima de Chico Buarque (
Trocando em Miúdos, parceria com Francis Hime, e
Fado Tropical, com Rui Guerra, entre outras) à saudosa galhofa de Adoniran Barbosa (
As Mariposas e
Iracema); de uma inusitada parceria de Manoel de Barros com Tetê Spíndola (
Poema da Lesma: Se no tranco do vento, a lesma treme/ No que sou de parede, a mesma prega/ Se no fundo da concha a lesma freme/ Aos refolhos da carne, ela se agrega) a um clássico do samba-canção como
Na Batucada da Vida, de Luís Peixoto e Ary Barrozo (No dia em que eu apareci no mundo/ Juntou uma porção de vagabundo da orgia/ De noite teve lua e batucada/ Que acabou de madrugada/ Em grossa pancadaria); da crônica poética sempre sempre inesquecível de Aldir Blanc (
Miss Suéter,
A Nível de e
Incompatibilidade de Gênios, todas com João Bosco, o imbatível partner do poeta) e Paulinho da Viola (
Comprimido) à estética rasga-coração da dupla Herivelto Martins e David Nasser (Atiraste uma pedra/ No peito de quem só te fez tanto bem/ E quebraste um telhado/ Perdeste um abrigo/ Feriste um Amigo) ou de Lupiscínio Rodrigues (
Nervos de Aço: Você sabe o que é ter um amor/ Meu senhor?/ Ter loucura por uma mulher/ E depois encontrar esse amor/ Meu senhor/ Nos braços de um outro qualquer?); de um insuspeitado Cartola (
Vou Contar Tim-tim por Tim-tim: Fui tão maltratada/ Foi tanta pancada/ Que ele me deu/ Estou toda doída/ Estou toda ferida/ Ninguém me socorreu/ Ninguém lá em casa apareceu) a um primoroso Cacaso, escolhido a dedo na parceria com Lourenço Baeta (
Meio Termo: Ah, como tenho me enganado/ Como tenho me matado/ Por ter demais confiado nas evidências do amor/ Como tenho andado certo/ Como tenho andado errado/ Por seu carinho inseguro/ Por meu caminho deserto); de um destemperado Caetano Veloso (
Não Enche: Quadrada, demente/ A melodia do meu samba põe você no lugar/ Me larga, não enche/ Me deixa cantar, me deixa cantar) a um hierático Gilberto Gil (O compositor me disse/ Que eu cantasse distraidamente esta canção/ Que eu cantasse como se o vento soprasse/ Pela boca, vindo do pulmão).
Dar forma e conteúdo a universo tão vasto e diverso foi o grande desafio de Pedro Paulo Rangel e Naum Alves de Souza. Amigos de longa data e parceiros assíduos nos anos 80 – quando, sob a direção de Naum, PP atuou em
Aurora da Minha Vida (1982) e
Um Beijo, um Abraço, um Aperto de Mão (1984), do próprio Naum, além de
El Grande de Coca-cola, de uma trinca de autores norte-americanos (1986) – , eles quebraram um jejum profissional de 18 anos para dar sentido a uma massa amorfa de cerca de 250 letras pré-selecionadas por PP e Antonio De Bonis. Absolutamente à vontade no terreno da música popular brasileira, Naum – que já assinou direção,
roteiro, cenografia e/ou figurinos de espetáculos de Maria Bethânia (
A Hora da Estrela), Chico Buarque (
Francisco), Gonzaguinha (
Explode Coração) e Elis Regina (
Falso Brilhante), entre outros – tinha atravessado processo semelhante com Fernanda Montenegro, na criação de Dona Doida, recital em torno da produção literária da escritora mineira Adélia Prado. Aqui, também, as ligações entre uma obra e outra foram surgindo aos poucos – algumas vezes pela similitude, outras pelo contraste – e sugerindo a formação de pequenos blocos – que tanto podem guardar, em si, uma história, uma cena, como abordar um mesmo tema sob ângulos variados – , até compor um desenho cênico, uma dramaturgia.
Sem jamais resvalar para o caricato ou deturpar o sentido da palavra urdida pelo poeta, em cerca de 1h20 de espetáculo, Pedro Paulo Rangel investe-se aqui e ali de personagens masculinos e femininos, outras vezes opta pela interpretação cristalina da letra, e, eventualmente, busca a valorização do sentido das palavras por um caminho aparentemente inverso do que a letra propõe. Finalmente, mas não por último, PPRangel foi laureado com o Prêmio Shell de Melhor Ator de 2004 por seu desempenho em
SOPPA DE LETRA.
A cenografia criada por Naum Alves de Souza trabalha com fendas e aberturas nas três paredes (pano de fundo e tapadeiras laterais), que permitem a passagem da luz e a movimentação do ator por diferentes atmosferas, e lança mão de mesas e cadeiras de estilos e épocas variadas, além de um ou outro objeto como apoio para a construção de uma cena. Um terno claro e um escuro – com adereços como gravata, colete e chapéu, que o ator veste ou tira, a depender do que a cena pede – compõem os figurinos. Pano de fundo, tapadeiras e figurinos recebem a interferência do traço livre do múltiplo Naum, que transita também pelas artes plásticas.
De volta ao mercado carioca desde 2001, depois desenvolver um extenso trabalho à frente do Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba, Roberto Gnattali – arquiteto e regente da extinta Orquestra de Música Brasileira, que, com irreverência, bom-humor e boa música conquistou o público carioca nos anos 80, e diretor musical do cultuado
Obrigado, Cartola – recorre a um trio de sopros, cordas dedilhadas e percussão para estabelecer um contraponto com a cena, construindo uma trilha incidental que pontua o espetáculo através de citações que comentam letra ou cena, da preparação de entradas e saídas de blocos ou canções, e da produção de efeitos sonoros que apóiem a dramaturgia, sem incorrer no óbvio ou sair martelando no ouvido do espectador a melodia a que estaria atrelada a letra em questão.
Tudo isto posto, quem quiser, que cante outra.