Foi minha amiga de muitos anos Marta Viana -a fotógrafa que registrou com seu clique sensível quase todos os meu trabalhos em teatro- que me emprestou o CD de Tetê Spíndola onde ouvi, musicado por ela, este poema do enorme poeta pantaneiro Manoel de Barros. Desde "Sertaneja", seu primeiro disco de que tive notícia, fui ferido no centro do peito pelo timbre de Tetê Spíndola e, graças à Deus, nunca mais me recuperei. Com Manoel de Barros tive a honra de dividir um CD, produzido por Paulinho Lima para o selo Luzes da Cidade, dizendo seus versos e contando seus causos. Fome com vontade de comer. Onde o poema está colocado no espetáculo, ele é quase uma burla com o público, vendendo como "arte" a quem a desejar, a poética misteriosa da lesma do velho Manoel.
Poema da Lesma
Manoel de Barros/ Tetê Spindola
Se no tranco do vento a lesma treme,
no que sou de parede a mesma prega;
se no fundo da concha a lesma freme,
aos refolhos da carne ela se agrega;
se nas abas da noite a lesma treva,
no que em mim jaz de escuro ela se trava;
se no meio da náusea a lesma gosma,
no que sofro de musgo a cuja lasma;
se no vinco da folha a lesma escuma,
nas calçadas do poema a vaca empluma!
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