É infalível: em quase cem por cento das vezes nas quais quebrávamos a cabeça procurando uma letra para entrar em determinado lugar, o poeta que surgia para nos salvar era Chico Buarque de Holanda. Houve um momento em que precisamos fazer um expurgo, pois suas letras seguiam-se numa seqüência de três ou quatro. A despeito da beleza inexcedível das melodias, as letras do Chico parecem que foram escritas para serem ditas. Transcrevo uma das muitas que não terei o prazer de declamar:
Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com seu terno mais bonito
Você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é operário
Vai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o quê
No caminho da oficina
Há um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que alegre ma non tropo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro meus braços pra você
Ilustração criada por Gabriel Villela para a exposição "A Imagem do Som",com concepção e curadoria de Felipe Taborda. Rio de Janeiro, 1999
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